Edição Especial II

O Dia Seguinte

O que a desistência de Ratinho Jr.
realmente redesenha?

Boletim Diário da Política Paranaense

www.cubeinteligencia.com.br
Data 24 de Março de 2026
Classificação Alta Confiança
Elaborado por Cube Inteligência Política
O Fato Novo
Sergio Moro

Sergio Moro filiou-se oficialmente ao PL nesta terça-feira (24/03), em cerimônia em Brasília com a presença de Valdemar Costa Neto (presidente do PL) e do senador Flávio Bolsonaro. A esposa, deputada federal Rosângela Moro, também se filiou. A chapa paranaense do PL está consolidada: Moro ao governo, Deltan Dallagnol (Novo, em coligação com o PL) e Filipe Barros (PL) ao Senado. O Paraná se torna peça central do projeto presidencial de Flávio Bolsonaro.

Em menos de 24 horas, dois movimentos redefiniram o cenário político do Paraná e do Brasil: Ratinho Jr. saiu da corrida presidencial (23/03) e Moro entrou formalmente no PL (24/03). Esta edição analisa o que vem depois.

Moro no PL: O que Muda e o que Não Muda

O que muda

Antes (Moro no União Brasil)Agora (Moro no PL)
Moro era vetado pelo PP dentro da federação PP+UB — Ricardo Barros bloqueava sua candidatura nas convençõesMoro tem liberdade total para concorrer, com apoio integral do PL nacional
A candidatura dependia de negociação interna da federaçãoA candidatura é decisão do PL — sem veto possível
Flávio Bolsonaro articulava à distânciaFlávio é fiador direto do projeto — Moro entrega o palanque do PR em troca de apoio ao governo
Deltan e Moro estavam em partidos diferentes, com relação pessoal rompidaFlávio mediou a reaproximação — Deltan (Novo) entra na chapa via coligação com o PL

O que não muda

  • Moro continua líder nas pesquisas — 40-47% em cenários estimulados (Paraná Pesquisas e IRG, março/2026)
  • O campo governista continua fragmentado — Guto (14%), Greca (19,7%), Curi (15,2%) disputam o mesmo eleitor
  • Ratinho Jr. continua com 84% de aprovação — o ativo mais valioso do tabuleiro paranaense
  • A pergunta central permanece: o campo anti-Moro se unifica ou se fragmenta?

O significado da reconciliação Moro-Bolsonaro

Moro e o bolsonarismo romperam publicamente em abril de 2020, quando Moro demitiu-se do Ministério da Justiça acusando Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal. Bolsonaro respondeu chamando Moro de "traíra e mentiroso". Em 2022, disputaram em campos opostos.

Agora, 6 anos depois, estão no mesmo partido. O que isso revela:

  • • O bolsonarismo de 2026 é mais pragmático do que o de 2018-2022 — Flávio opera por interesse, não por ideologia
  • • Moro fez o cálculo: sem o PL, não tinha estrutura para vencer. Com o PL, é favorito
  • • A aliança é de conveniência, não de convicção — e alianças de conveniência têm prazo de validade
Por que Ratinho Realmente Ficou: As Camadas da Decisão

Primeira camada — A versão oficial

O governo do Paraná declarou que Ratinho Jr. "está convicto que deve manter o compromisso selado com os paranaenses" e que "não pode interromper o projeto que tem garantido o ciclo de crescimento econômico do Paraná". Após o mandato, pretende assumir o Grupo de Comunicação da família.

Segunda camada — O cálculo estratégico

A Edição Especial I (23/03) detalhou os três fatores que convergiram na semana de 18 a 23/03: a aliança Moro-Flávio, a debandada de aliados (Novo), e o ultimato do PL. Mas há um quarto fator que a análise convencional subestima:

Ficar no governo é, simultaneamente, escudo e arma.

O que Ratinho ganha ficandoO que perderia saindo
Controle total da sucessão — 100% dedicado ao Paraná. Benchmarks históricos mostram que governadores com 80%+ de aprovação dedicados exclusivamente à sucessão transferem entre 40 e 47pp (Rui Costa/BA: +43pp; Azambuja/MS: +47pp)Sem controle da sucessão, o PSD ficaria sem liderança no estado e Moro teria caminho livre
Marca pessoal preservada — 84% de aprovação intacta. Qualquer campanha nacional desgasta, mesmo a vitoriosa7% no 1º turno e derrota no 2º turno (33% x 42% contra Lula) destruiriam o ativo
Posição de kingmaker — se o PSD perder a Presidência com Caiado ou Leite, Ratinho será "o nome que fez falta"Sairia como mais um derrotado, sem diferencial para 2030
Tempo — questões administrativas e empresariais que hoje tramitam em âmbito regional permanecem em âmbito regionalCandidatura presidencial é um scanner de corpo inteiro: CPI nacional, imprensa investigativa federal, adversários com orçamento de pesquisa de oposição

Terceira camada — O que os bastidores sussurram

A candidatura presidencial traria um nível de exposição que nenhum governador com estruturas empresariais familiares complexas deseja enfrentar. Governadores populares sobrevivem porque o ecossistema local tem incentivos para não destruí-los — a mídia regional depende de publicidade oficial, os empresários dependem de contratos, os aliados dependem de cargos.

Quando esse mesmo governador sobe ao palco nacional, esses escudos desaparecem. A Folha de São Paulo não depende de publicidade do governo do Paraná. A Globo não precisa de contratos com a Celepar. O adversário presidencial não tem nenhuma razão para poupar.

Renan Santos (MBL) declarou publicamente, em 24/03, que a motivação real seria "medo de exposição" — vinculando a decisão a investigações em curso que ganhariam escala nacional com uma candidatura ao Planalto.

O paradoxo: ficar protege, mas ficar é ser alvo fixo

Ratinho Jr. ficou para proteger — mas quem se beneficia de enfraquecer Ratinho agora?

AtorIncentivoFerramenta
Moro / PLDestruir a capacidade de transferência de votos — se a marca Ratinho é manchada, o candidato herdeiro perde valorMídia investigativa, articulação com PF, CPIs
Oposição (PT/PDT)Desgastar o governo para viabilizar Requião Filho ao governoRequerimentos na ALEP, denúncias ao MP
Mídia nacionalRatinho virou personagem nacional ao desistir — há interesse editorial em explicar "o verdadeiro motivo"Reportagens investigativas

A variável decisiva: não é se existem fatos — é se os fatos chegam à superfície antes de outubro. Se chegarem com força, a equação de transferência de votos muda drasticamente, e Moro vence sem precisar de segundo turno.

O Tabuleiro do Paraná: Quem Precisa de Quem

O retrato eleitoral (pesquisas de março/2026)

CandidatoPartidoIRGParaná PesquisasPosição
Sergio MoroPL40,8-43,5%40,1-47%Líder isolado
Rafael GrecaMDB19,7%19,1%2º lugar
Requião FilhoPDT18-19,7%20,4-23,1%Disputa 2º/3º
Alexandre CuriPSD15,2%Depende de definição
Guto SilvaPSD14%4,3-8,2%Candidato de Ratinho — cresce com apoio

Moro: favorito, mas com inflação de reconhecimento

Moro lidera todos os cenários. Mas há um dado que o senso comum ignora: na pesquisa espontânea (sem lista de nomes), Moro marca apenas 5,9% — contra 43,5% na estimulada. Essa diferença de 37,6pp é inflação por reconhecimento de nome, não voto consolidado.

Precedente: ACM Neto na Bahia em 2022 tinha 56% em agosto e terminou com 40,8% em outubro (-15,2pp), quando enfrentou Jerônimo, candidato de Rui Costa (governador com 80% de aprovação dedicado à sucessão). Ratinho Jr. replica esse cenário com 84% de aprovação.

Na história recente do Brasil, nenhum candidato com 40%+ em março venceu enfrentando governador com 80%+ de aprovação dedicado à sucessão estadual.

O campo governista: fragmentado hoje, potencialmente imbatível

O voto anti-Moro no Paraná soma ~68% (Greca 19,7% + Requião Filho ~19% + Curi 15,2% + Guto 14%). O problema é que está dividido entre quatro nomes. Se unificado em torno de um, vence Moro. Se fragmentado, nenhum chega ao 2º turno com fôlego.

Variável 1 — Greca aceita ser vice de Guto?

Se Greca aceitar ser vice de Guto na chapa PSD+MDB, a coalizão unifica o campo e soma a base de ambos + a transferência de Ratinho. Se insistir em ser cabeça, o campo se fragmenta e Moro vence no 1º turno.

Variável 2 — Curi vai ao governo ou ao Senado?

Alexandre Curi tem 42,1% para o Senado. Se desiste do governo e vai ao Senado: seus 15,2% se redistribuem (~60-75% migra para a chapa governista), Curi compete com Deltan no Senado — enfraquece a "Chapa da Lava Jato".

Variável 3 — A Federação PP+UB é homologada?

O TSE julga a homologação em 26/03 — daqui a 2 dias. Se homologada, a Federação se torna o maior bloco político do país: 109 deputados federais, 14 senadores, ~1.400 prefeitos e ~R$ 954 milhões em fundo eleitoral.

Sem FederaçãoCom FederaçãoDiferença
PP negocia sozinho (~43 prefeitos)PP+UB juntos (~72 prefeitos, ~650-750 vereadores)+5-7pp para o campo governista
União Brasil livre para apoiar MoroUB vinculada ao campo governistaMoro perde ~2-3pp
Moro favoritoCampo governista favoritoSwing de 7-10pp

Os cenários consolidados

ComponenteCenário A — FragmentadoCenário B — Coalizão Unificada
Guto + Ratinho 100%~34-39%~16-21% (base)
Greca19,7% (separado)Vice (+4-6pp)
Curi15,2% (separado)Ao Senado (votos migram)
Transferência Ratinho+20-25pp
Federação PP+UB+5-7pp
Convergência+3-5pp
ResultadoMoro vence no 1ºTRealista: ~48-54% — Governista favorito (65-70%)

A diferença entre o Cenário A e o Cenário B é a diferença entre perder no 1º turno e vencer a eleição. Toda a disputa paranaense se resume a uma pergunta: o campo se unifica ou não?

O Senado do Paraná: A Eleição Invisível

Por que o Senado importa mais do que parece

O Paraná elege 2 senadores em 2026. O Senado brasileiro renova 54 das 81 cadeiras neste ciclo (2/3 da casa). Quem controlar a maioria do Senado controlará:

  • • Aprovação de indicações ao STF (maioria simples)
  • • Escolha do Procurador-Geral da República
  • • Aprovação de emendas constitucionais (3/5 dos votos)

Essas decisões moldam o poder institucional do Brasil pelos próximos 20 a 30 anos.

Os candidatos e seus números

CandidatoPartidoParaná Pesquisas (c/ Álvaro Dias)Paraná Pesquisas (s/ Álvaro Dias)
Álvaro DiasMDB49,6%
Alexandre CuriPSD33,7%42,1%
Gleisi HoffmannPT24,1%27,5%
Filipe BarrosPL23,7%34,7%
Cristina GraemlUnião Brasil23,1%28,9%
CandidatoPartidoIRG (mar/2026)
Deltan DallagnolNovo19,5%
Álvaro DiasMDB17,5%
Gleisi HoffmannPT16%
Alexandre CuriPSD13,5%
Cristina GraemlUnião Brasil10%
Filipe BarrosPL9%

Os dois cenários para o Senado

Cenário PLCenário Governista/Centrão
Deltan Dallagnol (Novo/PL) + Filipe Barros (PL) vencem as duas vagas → bolsonarismo ganha 2 senadores alinhados com agenda de controle institucionalAlexandre Curi (PSD) + Álvaro Dias (MDB) vencem → campo de centro mantém equilíbrio institucional

O fator Gleisi Hoffmann: A presidente do PT é a principal candidata da esquerda ao Senado no Paraná, com 16-27,5%. Porém, carrega a maior rejeição entre todos os candidatos testados: 46,6%. Se Gleisi crescer, toma voto de Curi e Álvaro Dias — e pode abrir espaço para que o PL leve as duas vagas. O PT no Senado do Paraná é, paradoxalmente, mais útil ao bolsonarismo do que ao campo governista.

O Impacto Nacional: O Novo Tabuleiro Presidencial

A terceira via perdeu seu melhor nome

Candidato1º Turno2º Turno vs. LulaSituação
Ratinho Jr.7%33% x 42%Declarou que não concorrerá (23/03)
Ronaldo Caiado4%32-33% x 43-44%Favorito interno — filiou-se ao PSD em 14/03. Governador de Goiás, 76 anos
Eduardo Leite3%26% x 42%Oficializou pré-candidatura em 06/03. Governador do RS

Kassab deve anunciar o nome do PSD nas próximas semanas. Caiado é o favorito interno, mas nenhum dos dois tem condições reais de vencer a Presidência — ambos perdem para Lula por 10 a 16 pontos no 2º turno. A função da candidatura do PSD em 2026 não é vencer — é posicionar o partido como pivô no 2º turno, negociando apoio em troca de ministérios e poder.

A polarização se consolidou — e Flávio pode vencer

IndicadorFevereiroMarçoTendência
Lula x Flávio (2ºT)43% x 38%41% x 41%Empate — Flávio cresceu 3pp em 1 mês
Flávio entre independentes (2ºT)32% x 27% (Flávio lidera)Flávio captura eleitor fora da bolha
"Lula deveria se reeleger?"59% dizem NÃORejeição à reeleição é majoritária

O empate no 2º turno (41x41) representa uma virada em relação a poucos meses atrás. A liderança de Flávio entre eleitores independentes (32% x 27%) é o dado mais alarmante para o governo — significa que a narrativa anti-Lula está funcionando fora da bolha bolsonarista.

O que conecta Paraná e Presidência

O Paraná é o 5º maior colégio eleitoral do Brasil (8,4 milhões de eleitores). Quem controlar o palanque do governo estadual, controla o palanque presidencial no estado.

Se Moro vencer no PRSe o campo governista vencer
Flávio ganha o palanque do 5º maior eleitorado + Tarcísio em SP = os dois maiores estados do Sul/Sudeste alinhados ao PLPSD mantém o Paraná e prova que a terceira via ainda elege governadores
PL domina governo + 2 vagas no Senado = poder total no estadoCampo de centro preserva equilíbrio institucional no Senado
Ratinho Jr. perde relevância — seu candidato perdeuRatinho Jr. sai como líder que transferiu votos — capital para 2030
O que Monitorar nas Próximas Semanas

1. Greca aceita ser vice de Guto? (Prazo: abril-maio)

Se sim: coalizão unificada PSD+MDB — campo governista favorito (48-54%).

Se não: campo fragmentado — Moro vence no 1º turno.

Indicador: declarações de Greca e do MDB após as convenções.

2. TSE homologa a Federação PP+UB? (Data: 26/03)

Se sim: swing de 7-10pp a favor do campo governista.

Se não: tabuleiro se redefine — UB livre para apoiar Moro.

Indicador: decisão do TSE na quinta-feira.

3. Curi define governo ou Senado? (Prazo: até 03/04)

Se Senado: libera votos para Guto + compete com Deltan.

Se governo: fragmenta o campo — mais um nome disputando.

Indicador: conversa com Ratinho Jr. e decisão sobre troca partidária (janela fecha em 03/04).

4. Moro sofre deflação nas pesquisas? (Monitorar: maio-julho)

Se cair 8-12pp: tese da regressão à média se confirma — campo governista ultrapassa.

Se mantiver 40%+: Moro é mais resistente que o previsto.

Indicador: próximas pesquisas Paraná Pesquisas e IRG (abril-maio).

5. Kassab escolhe Caiado ou Leite? (Prazo: abril)

Se Caiado: PSD mais à direita, disputa voto com Flávio.

Se Leite: PSD aposta no centro, mas com números piores.

Indicador: movimentações de desincompatibilização e declarações de Kassab.

6. Flávio mantém trajetória de crescimento? (Monitorar: abril-outubro)

Se empate virar vantagem (Flávio acima de 43%): Lula em perigo real.

Se Lula reagir (5pp+): polarização favorece Lula.

Indicador: pesquisas Quaest e Datafolha mensais + indicadores econômicos.

7. Revelações sobre bastidores do governo PR ganham escala nacional?

Se sim: capacidade de transferência de votos de Ratinho cai — Moro vence.

Se não: os 84% de aprovação se mantêm e a transferência funciona.

Indicador: cobertura de veículos nacionais (Folha, Globo, Metrópoles) sobre temas do governo PR.

Síntese

A desistência de Ratinho Jr. não encerrou uma disputa — abriu três:

1. No Paraná: a eleição do governo será decidida pela capacidade de unificação do campo anti-Moro, não pela força de Moro. Se unificar, o campo governista vence. Se fragmentar, Moro vence no 1º turno. Greca é a variável-chave.

2. No Senado: duas vagas que parecem corrida local, mas definem o equilíbrio de poder institucional do Brasil por décadas. O PL quer as duas; o campo governista precisa de pelo menos uma.

3. Na Presidência: a terceira via perdeu seu nome mais competitivo, Flávio Bolsonaro empatou com Lula, e o PSD passa a ser partido de negociação, não de competição. A eleição de 2026 será Lula x Flávio — e, pela primeira vez, não é óbvio quem vence.

Ratinho Jr. ficou. A pergunta que resta não é se ele fez bem em ficar — é se conseguirá controlar o que acontece enquanto fica.

Fontes

Pesquisas citadas

Reportagens citadas